Os veículos comerciais conectados começam a ampliar o uso de telemetria para além da gestão das frotas no Brasil. Dados produzidos por caminhões já podem participar do cálculo de seguros vinculados ao comportamento de condução, criando outra utilização para informações sobre velocidade, frenagens, acelerações, horários e vias percorridas.

Dados de condução permitem criar produtos vinculados ao comportamento real do motorista

Foto: Pexels-Markus Spiske

O modelo conhecido como Pay How You Drive utiliza esses registros para compor o perfil de risco de cada operação. Em vez de considerar apenas informações tradicionais sobre condutor e veículo, a seguradora consegue observar padrões efetivamente registrados durante o trabalho e ajustar produtos às características identificadas.

A mudança decorre da quantidade crescente de informações produzidas pelos caminhões. Sistemas conectados registram localização, utilização, comportamento de condução e condições operacionais. Até recentemente, esses dados eram direcionados principalmente à produtividade, manutenção e consumo, mas começam a alcançar serviços financeiros relacionados ao próprio veículo.

No financiamento, a aplicação ainda está em estágio anterior no mercado brasileiro. Instituições avaliam a possibilidade de utilizar dados para desenvolver contratos associados ao comportamento e à sazonalidade das operações, mas esse modelo depende de infraestrutura capaz de transmitir informações continuamente em diferentes regiões do território nacional.

Esse ponto expõe um obstáculo: áreas sem cobertura de rede ainda dificultam a transmissão contínua de dados em rotas de longa distância. A questão aparece principalmente em operações ligadas ao agronegócio, mineração e transporte rodoviário, justamente segmentos nos quais veículos podem percorrer extensos trechos afastados dos centros urbanos.

Telemetria começa a mudar cálculo do seguro de veículos comerciais

A telemetria também permite relacionar risco à forma como cada veículo é utilizado. Acelerações, frenagens e velocidades podem indicar padrões diferentes entre motoristas que conduzem veículos semelhantes. Para seguradoras, esses registros acrescentam outra camada à análise; para frotistas, podem criar incentivos econômicos associados a determinadas práticas de direção.

A próxima etapa envolve integrar dados automotivos, conectividade e inteligência artificial para identificar padrões e construir produtos que acompanhem mudanças das operações. O caminhão deixa, nesse cenário, de ser apenas o objeto financiado ou segurado e passa a fornecer informações utilizadas para calcular parte do serviço contratado.

O avanço dessa aplicação dependerá da cobertura de telecomunicações, das regras de utilização dos dados e da capacidade de transformar registros em critérios compreensíveis para clientes. A discussão mostra que conectividade automotiva pode alterar não somente o funcionamento dos veículos, mas serviços financeiros construídos ao redor das frotas.