A indústria brasileira de autopeças registrou déficit comercial de US$ 12,1 bilhões, equivalente a aproximadamente R$ 64,1 bilhões, enquanto as importações chinesas ampliaram participação no abastecimento das montadoras e do mercado de reposição. O movimento ocorre com a entrada de novas marcas e tecnologias no País.

Déficit comercial chega a US$ 12,1 bilhões e expõe mudanças no fornecimento

Foto: Pexels-Sandeep Singh

As compras brasileiras de componentes produzidos na China cresceram 33,9% no acumulado do ano. Somente em setembro, alcançaram US$ 627,3 milhões, cerca de R$ 3,32 bilhões, aumento de 53,8% sobre igual período anterior. O avanço supera o ritmo observado em outras origens.

As exportações brasileiras de autopeças para a Argentina, um dos principais destinos da produção nacional, recuaram 21,6%. A combinação entre importações crescentes e embarques menores amplia o desequilíbrio e reduz a capacidade de compensar externamente as compras realizadas pela cadeia automotiva.

A mudança não decorre apenas do preço de peças tradicionais. Veículos eletrificados e conectados utilizam baterias, semicondutores, telas, sensores e módulos de controle cuja produção está concentrada na Ásia. A oferta brasileira ainda não acompanha integralmente a transformação tecnológica dos automóveis comercializados no mercado nacional.

Montadoras chinesas que chegam ao Brasil utilizam inicialmente componentes de suas cadeias globais para preservar especificações, custos e prazos. A nacionalização depende do volume produzido, da qualificação de fornecedores locais e da capacidade de atender requisitos técnicos estabelecidos durante o desenvolvimento original do veículo.

Autopeças chinesas ampliam pressão sobre a indústria brasileira

Para as empresas brasileiras, competir exige produtividade, escala e participação antecipada nos projetos. Um fornecedor consultado somente depois que o componente foi desenvolvido no exterior enfrenta limitações para alterar materiais, desenho ou processo. A integração precisa começar durante a engenharia, antes da definição comercial.

O crescimento das importações também afeta oficinas e distribuidores. Novas marcas introduzem códigos, sistemas eletrônicos e procedimentos que precisam de peças disponíveis durante a vida do veículo. Depender de reposição externa pode ampliar prazos quando ocorrem interrupções logísticas ou mudanças cambiais.

O déficit mostra que produzir veículos no Brasil não garante conteúdo nacional suficiente. A resposta envolve formação técnica, engenharia, acesso a financiamento e contratos capazes de sustentar escala. Sem essa coordenação, a expansão do mercado poderá aumentar a montagem local sem desenvolver proporcionalmente a cadeia brasileira.