Claudio Carsughi morreu nesta quinta-feira, 10 de setembro, aos 93 anos, e deixou uma trajetória que atravessou diferentes períodos do jornalismo brasileiro. Para mim, a notícia também trouxe de volta lembranças de encontros profissionais que, com o passar dos anos, ganharam um significado que vai muito além das pautas que nos aproximaram.

Jornalismo perde uma referência que atravessou gerações de profissionais

Sérgio Dias e Claudio Carsughi em 9 de junho de 2016, durante um test-drive do Nissan March

A primeira vez que tive um contato profissional com Carsughi foi na saída de uma coletiva de imprensa da Abeifa, realizada no Renaissance São Paulo Hotel, na Alameda Santos. Enquanto aguardávamos nossos carros, tivemos a oportunidade de conversar. Pode parecer um momento comum, mas para mim não foi. Eu estava acostumado a vê-lo no SporTV e, de repente, estávamos ali falando como dois colegas jornalistas.

Esse encontro permaneceu na memória justamente pela simplicidade. Não havia câmera, microfone ou compromisso profissional naquele momento. Havia uma conversa entre dois jornalistas esperando seus carros. Eu sabia, porém, que ao meu lado estava alguém cuja história havia acompanhado antes mesmo de termos aquela oportunidade de conversar.

Outro episódio que guardo aconteceu em 9 de junho de 2016, durante um test-drive do Nissan March. Saímos de São Paulo com destino à Fazenda Dona Carolina, no interior paulista. Passei boa parte daquela viagem conversando com Carsughi — ou, para ser mais preciso, ouvindo.

Era uma oportunidade para aprender e eu sabia disso. Conversamos tanto durante o percurso que acabamos nos perdendo. Como consequência, fomos os últimos a chegar para o almoço programado pela organização. O atraso, que naquele momento fazia parte de um compromisso profissional, acabou se transformando em uma das recordações que guardo de minha trajetória no jornalismo automotivo.

Claudio Carsughi e as histórias de um jornalista que ensinava

Mais de dez anos depois, percebo que pouco importa termos errado o caminho naquele 9 de junho. O que ficou foi justamente o tempo adicional que tive ao lado dele. Naquele carro, durante o trajeto até a Fazenda Dona Carolina, pude ouvir histórias, trocar experiências e aprender com um jornalista que já havia percorrido muitos quilômetros dentro e fora das pistas.

Carsughi nasceu em Arezzo, na Itália, em 1932, e chegou ao Brasil ainda jovem. Engenheiro de formação, construiu sua carreira no jornalismo acompanhando futebol, automobilismo e indústria automobilística. Passou por rádio, televisão e publicações impressas, participando de diferentes períodos da comunicação brasileira.

Minha convivência com ele também passou pelo Prêmio Carsughi L’Auto Preferita. Tive o privilégio de integrar o júri entre 2015 e 2021. A premiação nasceu como uma homenagem realizada ainda em vida e colocou o nome de Carsughi em uma iniciativa diretamente relacionada ao setor ao qual dedicou parte de sua trajetória profissional.

Existiram muitos outros encontros, conversas e momentos que agora retornam à memória. Alguns foram rápidos, outros duraram uma viagem inteira. São episódios que vou guardar com alegria porque representam mais do que o contato com um jornalista cuja carreira acompanhei. Representam a oportunidade que tive de conviver e aprender com ele.

Hoje, ao receber a notícia de sua morte, lembro especialmente daquele estacionamento na Alameda Santos e daquela viagem de 9 de junho de 2016. Duas situações que não foram planejadas para se tornarem importantes. O tempo fez esse trabalho.

Obrigado, Carsughi, pelas conversas, pelos quilômetros compartilhados e, principalmente, por tudo o que pude aprender ouvindo você.